Jurídico
10/05/2012 18:08 - Em negócio inusual, J&F vai gerir Delta sem pagar nada
Em um dos mais intrigantes negócios do ano, a construtora Delta - que ocupa papel central na CPI sobre o contraventor Carlos Cachoeira e vê um portfólio de R$ 4 bilhões em obras públicas ruir com as denúncias - terá sua gestão transferida a um novo grupo que não gastará um centavo para assumir seu controle. A holding J&F Participações, controladora da JBS, processadora de carne bovina e neófita no setor de construção, passará a dirigir a empresa na próxima segunda-feira, sob condicionantes. A JBS tem o BNDES como um de seus maiores acionistas, com 31,4% do capital.
Nas atuais circunstâncias, estrear na área da construção com a empresa de Fernando Cavendish, dono de 80% do capital da Delta, é um risco que a J&F decidiu correr, já que não terá ônus. Ela mira as dezenas de obras para a Copa de 2014, os Jogos Olímpicos, o Programa de Aceleração do Crescimento e contratos com a Petrobras. Uma das dez maiores construtoras do país, a Delta tem apenas 1% de suas receitas provenientes de serviços ao setor privado.
Essa dependência do setor público coloca a decisão sobre sua sobrevivência nas mãos do governo federal. Para que o negócio prospere é indispensável um sinal verde do governo. Pessoas próximas aos futuros controladores dizem que o Palácio do Planalto foi consultado e não se opôs à iniciativa.
Mas na sede do governo a história é diferente. O Planalto não teria sido consultado e não aprovaria a compra. A expectativa da Presidência da República é que nos próximos dias, ainda neste mês, a Delta seja declarada "inidônea" pela Controladoria-Geral da União (CGU). Como tal, ela perderá todos os contratos que tem hoje com a administração pública federal.
Os novos gestores já avaliaram essa possibilidade, que não os intimida. "Uma grande construtora brasileira passou dez anos como inidônea. Foi à Justiça e, ao fim desse prazo, venceu o processo", disse uma fonte. Pelo acordo firmado ontem, a J&F vai honrar o pagamento da compra com os dividendos gerados pelos próprios negócios da construtora.
Por Cristiano Romero, Ivo Ribeiro, Fábio Pupo, Claudia Safatle e André Borges | De São Paulo e Brasília
Fonte: Valor Econômico (10.05.12)
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