Jurídico
21/09/2010 11:27 - O consumidor como parte da estratégia de negócios
Afinal, sozinho se vai mais rápido, mas junto se vai mais longe.
Era 1978 quando, pela primeira vez, uma empresa abriu no país um canal permanente de diálogo com o consumidor, que mais tarde originaria o que hoje chamamos de Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC). A iniciativa, até então, era inovadora e chamava atenção. Com o passar do tempo, no entanto, a sociedade e as relações de consumo passaram por transformações que mudaram a visão das empresas e o perfil dos clientes. Assim, abrir diálogo deixou de ser um diferencial para se tornar uma obrigação.
Hoje, de um lado, o consumidor exige seu direito e cobra transparência, respeito, atendimento bem feito e coerência entre discurso e prática. Ao mesmo tempo, ele quer ser compreendido e se relacionar com uma organização que entenda seus desejos, seus sonhos, suas vontades. Do outro lado do balcão, as empresas sentem a necessidade de se conectar às demandas da sociedade e assimilam a satisfação do cliente como parte essencial de suas estratégias de marca.
Nesses 32 anos, essa transformação na maneira como as organizações enxergam o consumidor trouxe avanços sem volta. Mas o desafio de todos os que vivem o mundo dos negócios não está completo: não se pode deixar a roda parar e nem mesmo desacelerar. Afinal, ainda há muito a melhorar. Importante celebrar os progressos, mas sem perder do horizonte que é preciso mais.
As novas mídias deram aos clientes condições de tornar público o seu ponto de vista e exigir o atendimento esperado
O que é obrigação passa a ser também diferencial competitivo. Alguns fatores que influenciam diretamente nas relações de consumo não param de passar por revoluções e, por consequência, impedem qualquer inércia nos modelos de gestão. Esse é o caso especialmente das comunicações. A ampliação na imprensa dos espaços dedicados aos direitos do consumidor verificada nos últimos anos e, principalmente, a chegada das novas mídias propiciaram aos clientes uma oportunidade de tornar seu ponto de vista público e exigir com mais força o atendimento esperado.
A possibilidade de qualquer pessoa alcançar um grande público por meio de ferramentas como blogs, Twitter e as redes sociais diversas não passou despercebida pelas empresas - o que manteve a roda em movimento. Algumas viram nessa nova situação um risco às suas marcas; outras detectaram uma oportunidade de alcançar seus públicos com mais facilidade e de estabelecer um relacionamento mais próximo, mais humano. Esse segundo grupo sabe que é "fora das quatro linhas", onde tradicionalmente se joga o jogo, que se pode transformar a experiência com o cliente em algo mais leve, mais humanas e menos exatas, mais coração e menos planilha de Excel, mais conversa e menos gravador.
Foi a partir dessa percepção que caiu a ideia de que a interação via mídias sociais é sinônimo de autopropaganda. Falar bem de si mesmo nesse ambiente com características tão particulares é o famoso "tiro no pé". O pouco tempo de vida desses meios já mostrou ser muito mais útil e estratégico usar as novas ferramentas para agregar valor à pessoa que está do outro lado, seja cliente ou não. Afinal, a experiência com a marca não começa no ponto de atendimento. As empresas demonstram que evoluíram nas relações de consumo ao se apropriar das novas possibilidades de comunicação para ouvir e assimilar opiniões e sugestões; trocar experiências; orientar; solucionar demandas; e até ao informar sobre outros assuntos relevantes, como sustentabilidade e consumo consciente.
O modelo de estabelecer um relacionamento em vez de se limitar à antiga relação de consumo, que se esgota no processo de compra e venda, tem se mostrado também uma estratégia inteligente e mais conveniente para o consumidor. Quando uma organização desenvolve um relacionamento de longo prazo e abre as portas e os ouvidos para quem está fora, não é só o cliente que sai ganhando. As empresas, além de fidelizarem seu público, constroem atratividade de marca e ficam mais sintonizadas às necessidades das pessoas. É o foco no foco do cliente. Como resultado desse diálogo, muitas vezes ideias de produtos e serviços inovadores saem do SAC, da Ouvidoria e de outros canais de interação.
Essa característica do consumidor de contribuir com a empresa por meio das suas experiências, aliás, sugere uma nova transformação nas relações de consumo. No momento, a visão dominante é a de que o cliente está no centro e isolado num patamar próprio, o que gerou por parte das empresas a chamada "cultura do servir". Mas, aqui e ali, essa perspectiva, um avanço em relação ao que se praticava no passado, começa a mudar. É a mais recente evolução nessa linha do tempo iniciada em 1978. Agora, o consumidor, para alguns, passa a ser tão importante e respeitado que, em vez de apenas ser "servido", é convidado a construir junto o futuro da organização. E, no caso de haver problemas (eles sempre existem, afinal, nossa imperfeição é natural), é chamado a ajudar a transformá-los em oportunidades. Quando as intenções são verdadeiras, o cliente é visto como um aliado, o que anula qualquer tabu de lidar com as próprias fraquezas e buscar soluções.
Por tudo isso, temos motivos para ficar otimistas, independentemente de qual lado do balcão estejamos. E fica a certeza de que há muito trabalho pela frente - afinal, o mercado não para de se expandir e de se transformar. Só nos últimos cinco anos, 30 milhões de pessoas chegaram à classe média. Some-se a isso a perspectiva de o país continuar crescendo, com Copa do Mundo e Olimpíada pela frente, e o rápido processo de inclusão digital que já está em curso. Junto do número de consumidores, cresce a sua exigência e as suas possibilidades de comunicação.
Que sejam bem-vindos os próximos anos de segura evolução nas relações de consumo e parabéns pelo aniversário de 20 anos do Código de Defesa do Consumidor. O cliente já se tornou parte integrante e fundamental de um admirável mundo novo no qual estamos todos conectados e no qual somos todos interdependentes. Melhor para quem perceber essa condição e der a ele a oportunidade de falar e de fazer junto. Sairão ganhando as duas partes. Afinal, sozinho se vai mais rápido, mas junto se vai mais longe.
Veículo: Valor Econômico
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